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Quarta-feira, Junho 30, 2004 :::



Da Amidalite e sua estratégia napoleônica de guerra.


Domingo pela manhã, enquanto observavam a recuperação das tropas do 19º BAC (Batalhão de Anticorpos), que na noite anterior se refestelaram numa festa regada a muito álcool, inimigos da Coalizão Pró-amidalite (CP-A)insurgem num ataque impiedoso, aplicando terríveis técnicas para a tomada da República da Amídala Direita. Poucas horas depois, já de posse do território, partem rapidamente para o SNC (Sistema Nervoso Central), o qual tomam sem encontrar nenhuma resistência. De controle do SNC, as tropas da CP-A, espalham-se rapidamente, tomando quase que de assalto o restante do território corporal, dizimando ao longo do dia, toda e qualquer resistência que encontrassem pela frente. Nem o desembarque de altas companhias de resistentes, como a 4º Cia de Antiinflamatórios e a 18º Divisão de Infantaria do Paracetamol 500mg, conseguem impedir que a CP-A tombe, ao final da noite de Domingo, o último de seus soldados.
A madrugada de Domingo para segunda-feira fora terrível. Enquanto a CP-A preparava novos ataques, equipando ainda mais os seus exércitos no Sistema Nervoso Central, a Resistência Corporal Organizada (RCO) , tentava em vão, obter respostas de suas tropas de artilharia. A comunicação havia há tempos sido cortada pelo CP-A, que com uma brilhante estratégia, introduziu de forma avassaladora a 125º Cavalaria-Montada de Febre, que em poucos minutos cortou a comunicação do SNC com o restante do território corporal, causando grandes estragos neurológicos às tropas de resistência.
Na manhã de segunda, novo ataque. Agora, com a República da Amídala Direita completamente tomada, a CP-A corta de vez o debilitado sistema de alimentação das tropas de resistência, causando danos ainda maiores às já famigeradas tropas de defesa do organismo. O dia segue tenso, com a ação de diversas tropas de antiinflamatórios e terríveis combates das divisões de Paracetamol, acabando todas elas derrotadas pelo alto poderio organizado pelo CP-A.
Ao final da tarde, com a completa e irrefutável conquista da Coalizão Pró-Amidalite, e sem que se pudesse ter visível qualquer esboço de reação por parte das forças de resistência, as tropas da 189º Divisão de Infantaria do Paracetamol 500mg, juntamente com a 256º Artilharia Especializada do Profenid, conseguem, com pesados esforços, e perdendo grande parte de suas tropas, abrir contato com a Resistência Psicológica, que sitiada numa prisão do SNC, via imergir em fracasso qualquer tentativa de reação.
E é com o reforço importante das tropas Psicológicas, que a Resistência recomeça na madrugada de segunda para terça-feira, a exasperar as últimas e escassas forças que lhe restam, com a finalidade de planejar contra-ataques às tropas da CP-A. A madrugada torna-se tensa, tendo seus grandes combates causado danos de grande monta à diversas áreas psicológicas, como a paciência; insurgindo pesadas forças contra o sono, que acaba dizimado.
Na manhã de terça, com as tropas de resistência tomando grande e importante parte dos territórios corporais, é enviado pelo CCRC (Comando Central da Resistência Corporal) , apelo urgentíssimo às tropas Antibióticas, que ainda na manhã de quarta-feira desembarcam nas ondulosas regiões glúteas. A coalizão inimiga é fortemente combatida pelo armamento pesado das tropas antibióticas, sendo vencida pouco a pouco, desocupando territórios importantes para a Divisão Psicológica, que retoma por completo o Sistema Nervoso Central. Já na metade da tarde, pôde-se ver quase todos os soldados da CP-A abatidos, tendo sob sua tutela tão-somente uma ou duas regiões das Amídalas, mas não oferecendo maiores resistências às agressões do poderio antibiótico. A duras penas, os soldados do Paracetamol, juntamente com a cavalaria de antibióticos, tenta atacar a defesa inimiga na República da Amídala Direita, sofrendo grandes perdas, mas tendo ao final da terça-feira, já na manhã de quarta, adentrado o território, mandando aviso ao Departamento Central de Reconstruções Organísticas, de que o seu trabalho estaria começando.
E assim, entre mortos e feridos, me encontro aqui, depois de três dias e meio de batalha, com as pernas bambas e com a respiração ofegante, a lhes contar, mesmo com a cabeça doendo, que ainda estou vivo. E que a medicina não entende nada de infecções.

pré-conceituado por Gaudz :::

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Quarta-feira, Junho 23, 2004 :::


Se você está com problemas com drogas, talvez o Amor Exigente possa te ajudar.
Reuniões: Quartas-feiras, 20:00hs
Rua Paissandú, próx. ao Hospital da Cidade

foi o que li naquele papel amassado, jogado num vidro, com um fundo que passeava com pressa as paisagens urbanas do que a noite escondeu dos olhos dos homens de bem.
pois a exigência eu deixo pro desejo, que carnal em sua essência, já me fez perder o hábito e o hábito, e me fez perder de quem um dia eu queria ser. e de quem eu queria parecer ser. e eu sou assim, carnal por essência, derivado do desejo que vem de todas as formas, e encontra sabores para brindar com o ar da liberdade - e não da vida - os impulsos todos que partem da irônica falta de razão. que às vezes é o que motiva à vida - e não à liberdade. porque a liberdade desprovida da vida é meio que irracional. mesmo isso não tirando o seu mérito de felicidade. que pode estar num copo, um num anel.
pois do amor eu quero meio que tudo, menos a exigência. porque o exigente é aquele que é difícil se satisfazer. e eu não vim aqui pra satisfazer ninguém. só a mim. e isso já é uma grande, duradoura, conflituosa e impertinente exigência. que me entorpece. e não é droga.

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Sexta-feira, Junho 18, 2004 :::




nesta paisagem na qual admiro minhas filhas de cinquenta, penso na vida e na liberdade. Nem todos os paradoxos são válidos.
Pois a vida e a liberdade são conceitos tão próximos quanto irmãs de pais diferentes.
Ela escolheu viver e resignar sua liberdade. Ele preferiu a liberdade e assim descobriu a vida. "Ele queria uma vida para ele" - pensava ela. Dele, para e por ele. E foi feliz, pegando o terceiro trem daquela sexta-feira de agosto, sentado atrás do menino negro que chorava por estar perdido de sua mãe. Encheu o peito do ar dos libertos, como quem se pela primeira vez na vida tivesse respirado. Como se o que o passado o tivesse deixado, fossem apenas recordações de uma clausura, de um desassossego, de um sonho cínico.
E partiu para um lugar qualquer, onde pudesse comer a sua liberdade, que era a única coisa com a qual nascera e, provavelmente, a única com a qual morreria. E prometeu que morreria livre. Se possível fosse, de si mesmo.
Ela lixou o rosto na tábua do chão da sala, de pijama, às três da manhã de sábado, num olhar angulado ao retrato de casamento na parede. Que vivera a vida dois dois e nunca tivera liberdade. Para correr, para dizer, para aconselhar, para dormir. Que era o que ela não conseguia. Porque agora tinha liberdade, mas não tinha vida.

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Segunda-feira, Junho 14, 2004 :::




Tirocínio.
Naquele momento em que a palavra se faz duas é que a frase o sentido perde. E as palavras ditas, com verdades intensas, de formas constritas, nas paisagens agouras, transformam o sentido. Do exato e mesmo jeito.
Pois seria mais fácil se vivêssemos imunes às palavras. Como o verde que, sem água, sobrevive. Como a corda, intocada, que produz som. Como a morte que nunca fora anunciada. Pelo que faz a morte ser o que é, é o seu conhecimento.
Porque eu sempre espero a carta que não chega. A campainha que não tirintala. O telefone que não toca. E o não e o sim que não ouço. Porque eu sempre espero as flores que não vêm.
Mas isso tudo são cheiros, e as palavras não se cheiram. Nunca se cheiram as palavras. As Palavras.
Talvez eu preferisse viver de palavrórios, um sonâmbulo do palavreado, mudo à palavrões.

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Segunda-feira, Junho 07, 2004 :::




O menino que sai de sua casa correndo e na rua de terra vê o touro roncando. (Volta para tua casa, menino!).
E o touro juntou as patas, encenou o Diabo, e a terra levantou-se. Em disparada, palmo a palmo, o touro. Terra à cima, poeira no céu, coraçãoepêlo no inferno. Que as patas do touro carregam no peso a fome de inverno e de semelhança, passeou seu peso e seu medo na direção do menino.
Menino, roupa maltrapilha, pés descalços queimados do sol de trinta dias de seca, abre os braços e fecha os olhos. Desnuda a alma de objeto e material, repensa no que não vai ter e abre os olhos nos olhosdotouro. Que vem e vem, descabido em sua raiva pagã e solícita de morte. Via o menino, e nele, a sombra do que sempre quis ser. Soltando no ar a água das fuças, em cada dobra de pêlo, em cada freio que nunca teve, em cada marcadeferro que o patrão lhe serviu de graça.
E alguns ali pararam para ver o touro que trazia nas suas aspas a verdade não outra coisa senão. E a verdade sempre mata mais que as aspas. Outros o menino. Que sentia a terra tremer como quem tem fome de corpodegente. Que juntou as palmas das mãos sobre o peito, fechou os olhos e de joelhos foi ao solo, que o escondendo dos olhos do touro, sentiu em seu peito o que sentiria o menino.
Que da sombra do touro viu suas ancas em disparada nunca mais. E nunca mais se viu o touro e nunca mais se viu o menino. Que por não ter medo da verdade e que por penitente distribuir a espera sem medo, descobriu que aquele era apenas o primeiro touro a enfrentar nas ruas secas de terra que vive de comer e de salvar gente como ele.

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Quinta-feira, Junho 03, 2004 :::




Sempre há algo de novo nas páginas viradas. Algo que o próprio tempo tira pra mudar a forma. Um novo front na paisagem aritmética, novo ângulo na figura distorcida. Nunca é tarde demais para mudar um traço, dar um abraço, descerrar um laço.
O pânico do imutável é o que dá sabor ao arrependimento. A obrigação de fazer é esquecida e sobreposta à obrigação de olhar pra trás, de olhar de novo, de chutar as folhas caídas ao chão pra descobrir o verde da grama por baixo.

O que se quer das páginas viradas, hoje, é destacá-las. Desafio maior é reescrevê-las, mudando os sentidos, editando o final. Evitando o final.

pré-conceituado por Gaudz :::

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+ temp. Sussu